ENCURTANDO A HISTÓRIA

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LONGE DE CASA

Embora tenha nascido em um dia auspicioso - 06 de junho de 1966 - eu sempre carreguei um sentimento de não pertencer a este mundo, se é que você me entende. Eu tive os melhores pais que uma criança poderia ter, mas costumava sentir como se fosse de algum outro lugar e, por qualquer motivo, fora deixado para trás pelos meus semelhantes. Eu guardo memórias da minha primeira infância e é como se lá no fundo eu ainda me sentisse o mesmo. O vazio é tão familiar que parece que vou deixar de existir se por acaso ele for embora.

VELHAS LEMBRANÇAS

Por volta dos 3 anos de idade eu tinha uma guitarra futurista de brinquedo, muito parecida com aquela que os Impossíveis tocavam no desenho da TV, e um microfone falso que meu pai esculpiu em madeira e fixou num suporte feito de cabo de vassoura. Minha mãe costumava estar sempre por perto fazendo o serviço de casa e me anunciava como se fosse a apresentadora de algum programa de TV enquanto eu vinha da lavanderia para a cozinha e começava a dublar as músicas que tocavam na vitrola portátil.

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INFLUÊNCIAS DE OUTRA GERAÇÃO

Tive a sorte de meus pais só ouvirem boa música. Quando escutei os Beatles pela primeira vez logo percebi que havia algo mágico com relação à música e, definitivamente, eu queria fazer parte daquilo. Elvis, Los Shakers, Herman’s Hermits, Michel Polnareff, Rita Pavone e todo o resto daquela boa música também faziam parte da trilha sonora do nosso cotidiano. Aquilo soava tão familiar que às vezes parecia até haver algum lugar acolhedor para chamar de lar em alguma parte, mesmo não tendo a menor ideia de onde poderia ser.

PISANDO NO PEDAL

Não lembro exatamente quando ouvi os acordes distorcidos de uma guitarra pela primeira vez. Pode ter sido com os Rolling Stones ou talvez Jimi Hendrix, mas isso me excitava de tal maneira que me preenchia com uma energia indescritível. Eu era fascinado por aquilo, embora não conseguisse descrever a sensação que despertava em mim. A música podia ser áspera sem deixar de ser aconchegante. Eu adorava isso.

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EU SEI QUEM VOCÊ É

Quando minha jornada musical começou a maior parte dos nossos discos de vinil vinham dentro de um envelope com o logotipo da gravadora e um buraco no meio, onde você podia ler no rótulo o nome do artista e os nomes das músicas. Todo o resto era por conta da imaginação. Foi só mais tarde, quando vi Alice Cooper e sua cobra na TV, que essa emoção finalmente tomou forma e ganhou um rosto. Agora, pela primeira vez, eu sentia que não estava mais sozinho e talvez um dia os meus companheiros voltassem para me resgatar. Em minha mente infantil tudo o que eu tinha a fazer era descobrir uma maneira para que eles soubessem que eu estava lá. Eu só não imaginava como eu poderia fazer aquilo. Na minha cabeça as guitarras ainda eram apenas brinquedos de plástico e aqueles caras deviam estar só dublando as músicas, assim como eu fazia.

OS ANOS DE PURPURINA

Nós morávamos em um grande polo industrial recém estabelecido no interior do estado de São Paulo e meu pai nos sustentava com um emprego de operário, embora fosse um artista muito talentoso. Aos sábados de manhã ele desenhava, pintava e recortava personagens e máscaras para mim. Eu aprendia muito só de observar e, mais tarde, viria a desenvolver minhas próprias aptidões voltadas para pintura e escultura. Enquanto isso, T-Rex e Ziggy Stardust se tornavam meus amigos imaginários e eu continuava perseguindo aquele sentimento e me divertindo com eles, vestindo roupas da minha mãe, acessórios, maquiagem e dançando em volta do toca-discos enquanto as outras crianças da minha idade deviam estar em qualquer outro lugar, fazendo qualquer outra coisa.

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NÃO SE PODE DOMAR UMA FERA

De repente, toda aquela magia se transformou em meras lembranças. Já não podia mais dançar e cantar o dia todo fingindo ser um Astro do Rock. Era hora do jovenzinho começar a frequentar a escola. Devido à nossa ascendência italiana ir à igreja já era parte da nossa rotina. Vivíamos próximos da capital; porém, em uma daquelas cidadezinhas onde tudo girava em torno da comunidade religiosa. Estávamos habituados a assistir missa todos os domingos e participar de outros serviços esporádicos e celebrações. No entanto, eu não poderia imaginar que a Escola Católica seria mais como um Campo de Concentração. No início foi muito difícil compreender por que, embora me dissessem que eu era uma criança artística e criativa, eu não deveria me expressar se eu esperava que Deus sorrisse para mim. O castigo físico logo transformaria o garoto seguro e destemido em um merda recatado.

SENTIMENTOS NÃO PODEM SER ENJAULADOS

Quando adolescente, eu costumava passar a maior parte do tempo que estava em casa no meu quarto ouvindo música e lendo quadrinhos. A fim de que eu tivesse alguma vida social meus pais sugeriram que eu entrasse para o conservatório local para tomar aulas de música. Para minha decepção, a música começou a se tornar chata e sem vida e, em questão de meses, eu estava completamente confuso e perdido. Foi então que por sorte eu escutei os Sex Pistols na casa de um amigo. Num relance, percebi que eu também poderia fazer música eu mesmo, sem a necessidade de todas aquelas normas e frescuras. Deixei as aulas de piano e ganhei minha primeira guitarra aos 15 anos. Até hoje ainda não aprendi a tocar direito, mas sinto muito orgulho disso.

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MUITO ALÉM DA DIVERSÃO

Estive em algumas bandas desde minha juventude, mas poucas delas me trouxeram algo além de ressacas e frustrações. É difícil manter o foco em seu propósito quando os caras que você encontra pela estrada só querem estar no palco para impressionar as garotas. É difícil colocar seus ideais para fora quando os egos dos seus parceiros são maiores do que o talento e o espírito do Rock & Roll se resume a festas e bebedeiras. Do Punk Rock ao Heavy Metal, passando pelo Pop Rock, eu tentei com todo o tipo de companheiros que meu gosto eclético para música permitiu encontrar. De aberturas para grandes nomes a tocar violão em boteco em troca de comida, eu tentei de tudo. Eu considero a música uma ferramenta de transformação poderosa se usada com sabedoria; mas, por outro lado, também pode ser uma arma letal se você não souber lidar com ela corretamente.

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA ESCORRE PELOS FLANCOS

Depois de tantas tentativas infrutíferas decidi dar um tempo e ficar em modo de espera. Se estava tão difícil encontrar os caras certos eu deveria contratar ou fazer tudo sozinho. Porém, as duas opções exigiriam tempo e o tempo não espera pelos passageiros atrasados. A vida acabou me levando por muitas estradas que eu nem poderia ter imaginado. Algumas acrescentaram contribuições valiosas enquanto outras apenas me distraíram dos meus objetivos.

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UM CARA DA VELHA GUARDA SE REINVENTANDO EM TEMPOS MODERNOS

Quando a Roda de Samsara parou de girar me dei conta de que talvez já tivesse até cruzado o equador da minha vida. Não seria admissível ter vivido tudo que vivi e voltar para casa de mãos abanando. Eu era um cara sortudo que havia vivido a melhor das épocas para ser um fã de música e agora vivia o melhor momento para ser um músico. Querer é poder, dizem. Aquele que viaja sozinho viaja mais rápido, dizem. Então, tomei fôlego, arregacei as mangas e comecei a me instruir. Estudei produção musical, marketing, direito e todo o resto que julguei necessário conhecer. Em 2014 o primeiro passo estava dado. O Universo se encarregaria do resto.

AQUELE SUECO SUJO

Quanto aos suecos, eu espero que não me levem a mal. Tenho grande respeito pelo povo e sua cultura e eles não têm nada a ver com a escolha do meu "nome de guerra"; assim como o sanduíche, que eu também nunca experimentei. Trata-se apenas de uma lenda urbana da minha infância sobre um andarilho que raptava crianças desobedientes e as levava para servirem como suas escravas ou, quiçá, virarem comida. Possivelmente só uma variação local da lenda do Krampus.

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POR TRÁS DA MÁSCARA

Não sou exatamente o tipo de cara que você pode chamar uma pessoa sociável. Sou mais o tipo de cara tímido que tem um alterego Rock & Roll. Prefiro não falar sobre mim, mas deixar que a música fale por si. Então, assim como levou tempo até que eu pudesse associar as músicas que escutava com rostos reais, pensei: porque não mostrar apenas o meu interior enquanto eu canto o que vem de dentro? Foi assim que a ideia de criar Dirty Swede foi concebida. Além do que, ser um personagem seria uma boa oportunidade para enveredar por outras mídias.

HORA DE DEIXAR ROLAR

Quando alguns problemas técnicos adiaram o lançamento do primeiro EP de 2015 para 2016, o momento se mostrou oportuno para deixar vazar algumas músicas para programas de rádio voltados para o público de Rock Alternativo no Brasil, Argentina, México e também estabelecer uma parceria com o ilustrador Leonardo Mazzer, que já vinha trabalhando no vídeo de Dirty Swede, a fim de que meu alterego de herói de quadrinhos pudesse vir à tona. Porém, até então, eu ainda não sabia muito bem como me sentiria em cima de um palco novamente depois de tanto tempo.

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O “DEPOIS” NÃO NOS PERTENCE

As águas continuaram rolando, pessoas novas entraram em minha vida, outras partiram – por vontade própria ou motivo de força maior – mas foi a morte prematura de meu pai que me fez abrir os olhos de uma vez para o fato de que precisava completar minha missão. Enquanto muita coisa parecia estar indo mal, coisas melhores também aconteciam como de modo a continuar mantendo o equilíbrio. Sou muito grato às pessoas que, de passagem ou não, estiveram por perto e me deram o incentivo que faltava pra deixar de mimimi.

EU & OS CARAS

Após algumas conversas com antigos e novos amigos, o conceito do projeto se transformou em minha cabeça e no meu coração. No final de 2016 estava concebido o embrião de mais uma banda a cair na estrada no mundo real. No início de 2017 começamos a ensaiar. Dirty Swede continua sendo um personagem, mas agora – além da voz – também empresto meu corpo para ele.

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